Estava ansioso para que ela chegasse. Não a vi muitas vezes, somente quando criança. Ficava imaginando como estaria agora.
Eu tinha em mãos um pequeno bilhete endereçado ao Major e seria entregue por ela, Ana Isaura. Fui incumbido apenas de entregar o bilhete e levá-la até o hotel, mas nada me impedia de cortejá-la.
Enquanto esperava, pensava mil coisas. Meus passos já não tinham direção certa, tamanho meu nervosismo. As horas demoravam mais que o normal, o tic-tac do relógio me parecia um estrondo insuportável , então Ana Isaura apontou no saguão.
Só podia ser ela. Estava de óculos escuros que lhe davam um ar maduro, mas seu corpo esguio e sua pele perfeita destoavam de tal semelhança. Era perfeitamente bela, como imaginei. O som dos saltos dos seus sapatos invadiu todo o recinto. Soava como uma orquestra aos meus ouvidos.
Aos poucos o alívio substituía a ansiedade. Era a melhor visão que tivera em toda minha vida. O interior não contava com tanta beleza, diferente da capital que fazia questão de expor suas faces mais belas em festas como as do Automóvel Clube.
Em Fernandópolis o que se via não era muito, apenas aqueles mesmos rostinhos da missa das seis, inocentes, sem sofisticação, sem o perfume estonteante e sem aqueles olhares que provocariam rubor no mais escrachado conquistador.
Ana Isaura parecia pertencer a outra estirpe. Era bem nascida e muito elegante. Seu olhar maroto escondia sua profunda consternação.
Estivera com o coronel Aureliano pouco antes de falecer. Em seus desejos mais íntimos, teria morrido com ele. Mas lhe faltou coragem, imagino. Eu estava disposto a consolá-la.
Seu andar lento e firme era quase um deslizar. Seu olhar mirou em minha direção. Quase fui a nocaute. Entre suor, tremor e frio na espinha eu ensaiava um “Seja bem vinda” ou “Bom dia Ana Isaura”.
Enfim, estava diante da mais fulminante das mulheres que já vira. Ela se aproximou e eu já esperava o tom esnobe típico das moças da capital quando escutei seu arroto. Ela olhou para mim e riu da minha expressão de espanto. Fez uma bola e a esmagou com os dentes. Meu espanto aumentou quando ela estendeu a mão e perguntou:
- “Qué chicretes”!?
Meus sonhos mais puros terminaram com outro estouro de bola de goma de mascar.
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