Estava atravessando a rua e pensando o que teria de bom no restaurante. Como sempre, ao atravessar a rua, olhei para os dois lados e não vi nada de anormal, apenas o movimento rotineiro das pessoas do local. Um rapaz subia apressadamente, atrás dele um homem de uns 40 anos gritando: “eu quero ser esfaqueado por você”, disse em tom desafiador. O rapaz não olhou para trás. Parecia que não era com ele. Todos na rua pararam para entender aquilo. Eu, que já havia entrado no restaurante, voltei para a calçada para tentar entender o que estava acontecendo.
O homem tinha alcançado o rapaz e com um golpe o imobilizou. Realmente o rapaz estava com uma faca na cintura. Nesse momento uma voz feminina, imagino que pelo timbre seja de uma adolescente, pois não pude ver de onde vinha o apelo: “Não pai!! Não!!”
O homem já havia dominado o garoto, tomado a faca e ainda implorava para ser esfaqueado por ele. Um episódio muito estranho no meio da rua. Como não queria perder o apetite e nem ser testemunha de um assassinato, entrei no restaurante. Mas aquela cena ficou na cabeça.
Depois do almoço a tranqüilidade voltou àquela rua. Fiz questão de olhar pelo chão a procura de sangue, resultado daquela luta. Não havia nada. Nenhum tumulto causado por curiosos, nem nada que denunciasse aquela cena de antes do almoço.
Entrei no carro e tentei montar mentalmente os pedaços daquele quebra-cabeças incompleto. A primeira história veio fácil, “o rapaz namorava a menina que foi proibida de vê-lo pelo pai ciumento e possessivo. Diante da proibição o rapaz decide tirar satisfações com o sogro ciumento e acaba ameaçando-o caso não permita o namoro. O sogro não admite a afronta e vai às últimas conseqüências.” Mas quais foram as últimas conseqüências? Não havia sangue, nem corpo, muito menos morte no local da cena.
Passei a tarde no trabalho ruminando aqueles fatos. Entre uma tarefa e outra. Nenhuma conclusão.
Às seis saí da produtora, peguei Marina e fomos ao teatro. Ela havia comprado ingressos para uma peça do colégio do seu sobrinho. Às oito entramos no teatro, nos acomodamos e esperamos a cortina abrir. Quando abriu levei um susto. O rapaz cruza o palco, o mesmo homem segue atrás com a mesma fala da hora do almoço.
Assustado olhei para Marina. Estava compenetrada. A história era a mesma. Somente o final é que era diferente do que imaginei. (…)
Esses ensaios em público estão virando moda. Segundo o diretor se tratava de um laboratório para dar mais realismo e proporcionar uma experiência rica para os atores iniciantes. O chato é que você acaba pagando para ver uma história que já conhece. E o pior é que não gostei do final. Se tivesse chamado a polícia na hora do almoço o final seria bem mais interessante, não acha?
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