De onde mesmo?

Ao atravessar a rua um homem careca encontra um homem barrigudo. Ambos se olham de relance e rapidamente voltam a se olhar. Param por um momento e estudam-se. O careca sorri, o barrigudo retribui. O careca abre os braços e abraça o barrigudo.

_ Quanto tempo!!!

_ É… é !!!

_ Puxa cara que saudade!! Como é que você tá?

_ Bem, dentro do possível.

_ E sua esposa?

_ Está bem, está em casa cuidando da pequerrucha

_ O quê?! Você tem filha pequena?

_ Não, é minha neta.

_ Sério!!! O quê que é isso?! Como o tempo passa né?

_ É verdade. E sua esposa como está?

_ Está bem, acabei de deixá-la na casa da minha sogra para fazerem compras juntas.

_ Tá indo para onde agora?

_ Tô indo buscar meu menino no colégio.

_ Mas você não tinha uma menina?

_ Tenho. Esse é o mais novo.

_ E então. Vamos tomar uma cerveja?! Tem uma padaria aqui ó.

_ Vamos, mas não posso demorar.

_ Ok. Ô Purtuga! Traz uma pescoçuda bem gelada aí. Mas e aí cara, tá trabalhando onde agora?

_ Tô mexendo com importados.

_ É, e isso tá dando dinheiro?

_ Dá para garantir algum no fim do mês. E você?

_ Até o ano passado eu estava como gerente de novos negócios, mas como não pintava um novo negócio há seis meses eu fui encostado no departamento. A situação ficou constrangedora e eu pedi demissão. Agora estou vendo se abro um negócio próprio.

_ Já tem alguma coisa em mente?

_ Idéias eu tenho muitas, capital é que está pouco. Estou procurando um sócio agora.

_ Bom, eu estava querendo aumentar os negócios, mas estou com o capital comprometido e estava procurando um investidor.

_ Importação de quê você mexe?

_ Produtos diversos…

_ Hum!!! E de quanto seria o investimento inicial?

_ Não é alto não, coisa de cinco mil já dá pra entrar no ramo.

_ E como é que funciona?

_ Esse dinheiro dá para as despesas com as passagens, mais ou menos uns mil e quinhentos reais, e para as mercadorias.

_ Tá, mas que tipo de mercadorias.

_ Bom. Tem de tudo. De uísque a secador de cabelo.

_ Importados né…

_ Ééé… da melhor qualidade, produto americano.

_ Pô Amadeu!!! Você acha que eu vou virar sacoleiro internacional.

_ Hã!!

_ Tô com esse dinheiro para abrir um negócio e não para virar muambeiro.

_ Espera aí Oscar!!!

_ Meu nome não é Oscar.

_ O meu também não é Amadeu.

_ Como não? Você não é o Amadeu do batalhão de infantaria motorizada.

_ Que infantaria o quê. Eu tenho pé chato. E não servi exército não Oscar.

_ Meu nome é Fabiano. E se você não é o Amadeu… quem é você?

_ Francisco Valadares.

_ Tem certeza?

_ Claro. Você não é o Oscar?

_ Não.

_ Casado com a Marina?

_ Não.

_ Primo do Alberto?

_ Eu já falei que não.

_ Então eu não te conheço.

_ Deixa eu ir embora.

_ Paga a conta.

_ Paga você.

_ Você é que me convidou.

_ Até pagaria, mas não bebo com estranhos e estou sem dinheiro.

_ E como é que vai convidando os outros para tomar cerveja?

_ Muambeiro!!!

_ Caloteiro!!!

_ Vá… vá…

_ Vá você ô mão de vaca…

Esta foi a única vez que se encontraram na vida.

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