Nem a mais poderosa máquina poderia forjar aquela realidade sombria: tudo era extremamente branco. E lá estava eu plugado àqueles aparelhos. Porém minha realidade não era aquela. Poderia estar a quilômetros de distância, bastaria fechar os olhos e o novo se criaria em uma fração de segundos. Foi o que fiz.
Um parque, uma bela paisagem, pessoas felizes. Não seria possível naquele momento, mas tudo parecia real. Muito real. Andei alguns quilômetros para passar o tempo, tentei me perder naquele novo mundo, fazer novas descobertas de coisas que já vivi em outro lugar, em situações diferentes. Tudo era extremamente perfeito. Nada destoava naquele lugar. Apenas um som distante e contínuo que não queria identificar.
Passei por arbustos e tudo mudou repentinamente.
Agora eu estava em um prédio, estava sendo perseguido por inimigos que não podia ver mas podia sentir, sabia que eles estavam lá. Tinha que fugir mas um instinto forte me obrigava a lutar. Um dilema que me deixava tonto. Alguma coisa me fazia permanecer alerta e pronto para revidar qualquer ataque. Parecia iminente.
Um clarão na minha frente e inúmeros grãos tomaram minha boca. Estava começando a sufocar quando uma mulher suga minha boca com um tubo. Tentei olhar para seu rosto mas tudo ficou branco novamente. Respirei fundo e tentei voltar para o parque. Tudo mudou novamente.
Estava dentro de um avião, sua turbina aguda e potente soava dentro de minha cabeça. Olhava para todos dentro do avião tentando buscar uma explicação.
Ninguém percebia minha presença, não pareciam reais. Eram todos iguais. Uma angústia tomou conta de mim e disparei pelo corredor. Empurrei a aeromoça e arrombei a porta. Um frio me percorreu a espinha e comecei a cair. Abri os olhos e vi duas mulheres me olhando. Senti um cheiro de queimado. Era uma cozinha.
Me levantei e pedi desculpas. Já não sabia mais onde estava. Tinha certeza apenas que aquilo não era real. Mas também sabia que não estava sonhando. O que era aquilo então?
Uma realidade forjada para a fuga de algo que me incomodava? Quem estaria por trás daquilo? Subconsciente, estava abduzido, tudo já me parecia possível, até mesmo ser controlado por uma máquina.
Senti uma mão de borracha acariciar meu rosto. Abri os olhos e tudo ficou branco novamente. Estava deitado em uma poltrona, um tubo em minha boca. A poltrona se inclinou e eu percebi onde estava.
Uma voz suave diz:
_ Pode tirar o pano agora.
O branco dá lugar à imagem de minha dentista.
_ Bem vindo ao consultório.
_ Já acabou?
_ Sim. E você se comportou direitinho. Não chamou a patrulha estelar nem esfaqueou monstros. Acho que está superando seu trauma.
_ Estou?
_ Sim. Permaneceu aí quietinho sem dar nenhum pio.
_ É?!… Estou fazendo o que posso.
_ Seu retorno é na segunda.
_ Ok, até lá.
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